05 setembro, 2014

Por Que Sonhar


Inicialmente vale destacar que este texto não visa aludir aos sonhos que temos enquanto dormimos. Esse mistério que permeia a consciência e o subconsciente não é de minha alçada, embora eu ache interessantes e curiosas as pesquisas nessa área.

A um amigo que vez ou outra lê meus textos, pedi sugestão sobre o que escrever. A resposta, para minha surpresa, foi de cunho muito pessoal. Seu intuito era de que eu expusesse meus pensamentos sobre uma pergunta de foro íntimo dele, como se assim suplicasse por outros pontos de vistas sobre questionamentos feitos a si próprio, cujas respostas (também personalíssimas), por vezes, o faziam despencar do último andar de um prédio a um piso de concreto.

A questão principal foi: “Por que sonhar?

Juntamente a esta indagação principal, surgiram perguntas acessórias concatenadas, de algum modo, a este questionamento central. Ao menos foi o que minha mente imediatamente assimilou. Ao questionar o porquê de sonhar, pensei no contrário: por que desistir? São questionamentos aparentemente adversos, mas que possuem a mesma complexidade para elaboração de respostas no mínimo plausíveis, mesmo que o subjetivismo destas impere.

Ora, se não há por que sonhar, então não há por que desistir. Só desiste quem um dia já sonhou. Entretanto, quando pensamos em parar de sonhar, automaticamente nos remetemos ao fator “desistir”. E desistir nos faz retornar à estaca zero, à inércia total.

O que quero dizer é que, os sonhos, simples ou grandiosos, nos movem. Creio que a tendência natural das pessoas é a busca pela felicidade durante a sua existência. Enquanto em animais o instinto é meramente de sobrevivência e procriação, no ser humano surge a necessidade de se sentir feliz e realizado. Muitos suprem suas carências (ressalto que todos temos algum tipo de carência) de algum modo, seja com acúmulo de riquezas, realização profissional, formação de família, sentimento de esperança, pelo caráter, pela fé ou contexto social, e tantas outras hipóteses que eu não ousaria classificá-las como um rol taxativo. O que percebo é que todos esses fatores caminham para um mesmo objetivo: se sentir feliz em vida.

Em um livro de Augusto Cury, li uma ideia que me instigou a pensar sobre a sua lógica. Traduzia-se basicamente no sentido de que todos ansiamos pela vida, temos fome de vida. E o que o autor usou para elucidar foi o exemplo dos suicidas. Defendeu que, até mesmo os suicidas, ao buscarem ceifar suas próprias vidas, simplesmente o fazem por buscar “viver” de uma forma menos dolorosa; mais felizes. Trata-se de uma luta desesperada e insana contra a dor, pela vontade incalculável de se sentir mais feliz, eliminando a fonte de sofrimento.

A partir dessa ideia, retomo o meu posicionamento inicial sobre os sonhos serem o fomento da felicidade. Sendo o sonho a engrenagem que movimenta nossa vida em busca da felicidade, sem ele nos fazemos inúteis, meras máquinas sem sentimentos, sem razão para existirmos. Naturalmente, a busca pela felicidade enseja a busca por razões que nos façam felizes, razão para que continuemos a dita jornada, razão para sonharmos. Em resumo: os sonhos nos estimulam a encontrar o sentido de existirmos, a razão para agirmos, e nos aproximarmos da felicidade. Não é demais falar que se trata da fonte para o desenvolvimento pessoal e, ainda, profissional.

Questionamo-nos, por vezes, sobre o porquê de querermos ser mais fortes, continuarmos travando batalhas, quando o mais fácil seria jogar tudo para o alto. Pegamo-nos, no entanto, com uma dúvida “adesiva”: Será mesmo mais fácil desistir e carregar o peso da frustração por não ter tentado? Muitas pessoas enfrentam dilemas diários, onde são pegos de surpresa pelo embate entre desistir ou continuar. Se desistirem, terão que arcar com as consequências da frustração de não terem ido até o final; se prosseguirem, terão que lidar com o medo da possível frustração por não ter alcançado seus objetivos da forma como foram idealizados.

Ora, se assim ocorre, denota-se que em um primeiro momento, ao desistir, a frustração é garantida. Em um segundo momento, quando se opta por prosseguir, há risco de se frustrar, mas há uma probabilidade igual de se alcançar resultados satisfatórios. Pelo campo da lógica, fora da análise da veracidade de tais premissas, é notório que o mais prudente é prosseguir, já que a chance de que seja alcançado algum resultado satisfatório cresce pela metade. Eis um novo motivo para não se deixar de sonhar.
Chega-se à duas ideias principais: sonhar instiga a sair da inércia, aproximando o alcance da felicidade; sonhar aumenta as probabilidades de que sejam atingidos resultados positivos.

Cabe mencionar a frase da autoria de Eleanor Roosevelt:

O futuro pertence àqueles que acreditam na beleza dos seus sonhos”.

Alimentar um sonho significa o possível alcance de resultados, podendo ensejar grandes feitos. Ora, o gênio da física, Albert Einstein, após reprovar na escola, sofrendo de dislexia, teve inúmeros motivos para desistir, inclusive barreiras impostas por seus professores. Mas não desistiu. E o que aconteceu? Uma revolução na Física.
Os sonhos, a meu ver, não são necessariamente pensamentos utópicos, embora a força da palavra “sonho” possa nos induzir a pensar em objetivos quase que inatingíveis.

Abrindo mão de qualquer tentativa de exatidão, vale lembrar que, mesmo que não sejam sonhos utópicos, as coisas não costumam acontecer necessariamente tal qual planejamos. O cuidado maior que se deve ter é o de procurar não ser injusto consigo mesmo, não se martirizar. É importante ter a ciência de que imprevistos acontecem e, por assim serem, surgem para nos pregar peças.

Se martirizar não é a melhor saída e, talvez, até atrase a busca por uma vida feliz. O maior problema reside no fato de que corremos o risco de cairmos em armadilhas que nós mesmos criamos e, sair do buraco que por muito tempo cavamos é a forma mais brutal para nos martirizarmos. O fato é que a pior batalha é aquela que se trava consigo próprio.

Acima mencionei uma frase de Augusto Cury. Acho válido mencionar este trecho do livro “O Semeador de Ideias”, do mesmo autor:

Somos todos perdedores. Se não perdemos na vida, perdemos a vida. Os ganhos tornam-nos deuses; as perdas, humanos. Quem perde com dignidade conquista uma tranquilidade que os tranquilizantes não podem dar”.

Pertinente afirmar que não devemos nos endeusar indiretamente, uma vez que não somos perfeitos ou indignos de quaisquer possíveis falhas. Por isso reitero que a autopunição por não ter alcançado um resultado não deve ser desmedida, mas sim bem ponderada. Imprevistos podem acontecer, eventuais distrações, ou fatores independentes. Perdas nos instigam a querer melhorar, sermos dignos de novas tentativas e auxiliam ao consequente alcance da paz de espírito para prosseguir na jornada. Não se deve tomar as perdas como pontos estritamente negativos. Reafirmo o que ficou implícito: até as perdas nos fazem crescer. E isso significa não abolir os sonhos, o estopim para a felicidade em vida.

A partir disso, lições são tiradas. Admitir as premissas de que não estamos em grau de realizarmos algo é o mesmo que desistir de um sonho. E desistir de um sonho pode significar desistir de se alcançar a felicidade. Desistir de alcançar a felicidade é o próprio atestado de infelicidade proveniente da inércia. A felicidade não está só no que temos ou conseguimos, mas também naquilo que nos esforçamos para conseguir.

O fato de se esforçar para cumprir objetivos, por si só, já demonstra uma digna vontade de viver e colher prováveis frutos. A ausência da inércia pessoal pode ser fonte de admiração e, ainda, de superação consigo mesmo. O mero fato de não “parar” já demonstra grande avanço. Tudo pode nos servir de aprendizado, ainda que a meta inicial seja outra. Parte de nossos limites se origina através de autocríticas. Isso nos remete a pensar que somos capazes de extinguir aquilo que colocamos como limitações.

O caminho para o sucesso depende exclusivamente dos nossos anseios que criam sentido em nossas vidas e escolhas que fazemos. Traçar metas, idealizar objetivos ao longo da vida são os primeiros passos para a realização de sonhos e, no mínimo, trarão crescimento pessoal, independente dos rumos. Basta querer!


*Dedico este texto ao meu querido e admirado amigo Allan Mendes.

13 agosto, 2014

Identidade Sobreposta



Começou assim, aparentemente inocente. Ele sentia vontade de crescer na vida, de ser notado, de fazer por merecer. Lutava por isso. Esforçou-se bastante. Sempre quis ter seus próprios méritos e, a partir deles, ser valorizado. Quis traçar seu caminho, e assim o fez.

Suas metas pareciam possíveis de serem alcançadas rumo ao sucesso. Mas se encantou alucinadamente pelo dito “sucesso”, o objetivo primordial de sua vida que, por sua vez, parecia um tanto quanto longínquo. Optou, então, por desconsiderar todas as etapas que certamente e merecidamente o levariam até ele.

Em sua busca incansável pelo sucesso, tornou-se deveras ambicioso. Não se tratava de uma ambição no sentido de evoluir como pessoa, mas no sentido de diminuir a dignidade. Suas ambições, cegamente, sobrepunham os limites familiares, sociais, éticos e até humanos. Descartava o contexto entre o certo e o errado.

Abriu mão, indiretamente, de sua família, da vida que vivia até ali. Deixou de lado sua companheira de tantos anos. Passou a priorizar saídas com pessoas mais populares, poderosas, ricas e influentes.

Com esse jogo de interesses, forçou-se a ser quem nunca fora antes. Tentava ser alguém de outro nível social; inventava situações, despudoradamente, que o fizessem aparentar pertencer a uma “classe” mais notável, quase que uma “raça” superior.

Aliou-se a pessoas imundas. Sujou-se com a sujeira de outros, que se somou às suas próprias. Garantia seus interesses à custa de outros, sem qualquer critério. O dinheiro falou mais alto.

Passou a ter um preço. Colocou a soberba em primeiro plano. Perdeu-se!

Mal sabia que tinha, antes disso, sua própria vida. Perdeu-se quando quis ser outra pessoa. Não se contentou em querer melhorar, se reinventar. Achou prudente fingir ser quem não era, se sobrepondo a qualquer um que se opusesse. Quis ser outra pessoa, quis viver uma vida que não era sua, ou que não deveria ser. Pelo menos não desse jeito.

Em um plano paralelo, poderia estar em uma situação melhor, talvez pior. Mas estaria numa vida real. A vida real, tal qual se apresenta, é o que instiga a querer melhorar, a evoluir, a nos tornarmos mais fortes ou a buscarmos forças. Não há atalhos para aprender essas coisas. São etapas que não deveriam ser puladas. No entanto, ele parecia gostar de viver fora da realidade, passando por cima de outros, pisoteando sentimentos alheios.

Seria uma pessoa livre de problemas maiores, mas se pôs em uma posição em que se tornou seu próprio problema. Achava que o contexto que incorporou o obrigava a ser assim. Mal sabia que havia se tornado refém de seu próprio ego. E o seu ego espantava pessoas de bem, por vezes açoitando-as!

Assumiu um papel que não lhe cabia, nem por direito, tampouco por merecimento. Travestiu-se de alguém que jamais seria. Esbanjava um status que sabia não possuir, mas gostava de máscaras.

Passou, definitivamente, a se portar como se de determinado grupo pertencesse, e esta ilusão que criara o engolia. Era insatisfeito com a vida que tinha e, por isso, fantasiava ser outro “alguém”. Outrora sua insatisfação o inspirava a subir degraus da jornada da vida, mas sua cobiça tomou conta de sua alma; o fez querer pular etapas e se desvirtuar do caminho correto. Afastou os justos que o repreendiam, aproximou os corruptos que o apoiavam.

Estes últimos que o apoiavam foram os primeiros a fugirem quando a tempestade chegou. Mas antes, pelas costas, o chafurdaram na lama para garantirem que também não se sujariam. Ficou só. Sentiu-se injustiçado, fez-se de vítima, recusou-se a enxergar as causas de sua queda. Renegou qualquer tipo de remorso por algum dia haver sido injusto com os outros que tanto pisou. Sentiu pena de si mesmo. A cada choro, uma involução e uma cegueira mais avançada.

As pessoas são “faustas”, como Goethe tão bem expôs. “Fausta” foi a melhor definição para o que ele havia se tornado. Vendeu sua alma, trocou sua vida por ideais impostos por uma cultura reprodutivista de que quanto mais poder, melhor. Ideais sem sentido. Ele trocou sua alma por coisas fúteis e passageiras que preenchessem sua mediocridade.

Aos poucos sua história se transmutou para uma grande quimera. Notou, finalmente, que havia perdido a sua identidade. Não sabia mais como recuperar aquele que um dia havia sido. Tornou-se seu próprio escravo e, muito pior do que isso, o seu pior algoz.

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* Tema do texto sugerido pelo meu amigo Emilio Numazaki. 
* Insight sobre Goêthe sugerido pelo meu namorado Daniel Nunes.

Obrigada pelas dicas. Vale a dedicatória!

01 março, 2014

O Último Discurso x Protestos no Brasil

Que Charles Chaplin foi um gênio em muitos sentidos, não resta dúvida. Em “O Grande Ditador”, o ator proferiu um discurso sincero pela liberdade. O que mais chama a atenção é a atualidade do discurso. Ainda hoje, tudo o que foi levantado é reiterado por muitos que buscam e/ ou acreditam em um mundo mais justo e igualitário.

É cabível analogias aos fatos recentes de manifestações populares que têm como foco diversos problemas sociais. Existem apelos de liberdade há tempos no mundo inteiro sobre vários contextos, mas que se assemelham no sentido de serem contra o poder que “escraviza” o povo, que exalta a desigualdade e faz inchar a opressão.

Ressalte-se: as manifestações no Brasil aparentam ter um cunho generalizado, apartidário, que converge à raiz de todas as desigualdades e opressões do sistema como um todo. A centelha que faltava para desencadear essa sequência de movimentos no País foi o aumento das tarifas de transporte público em R$ 0,20 em São Paulo. Foi a gota d’água em um recipiente já saturado. Sabe-se, nitidamente, que o movimento não se limita a essa questão. Mais do que isso, é notório que a problemática não se finda somente em um aumento de vinte centavos.

Sob o prisma do desencanto político-social, temos problemas desta natureza comuns em vários países, os quais endossaram suas manifestações populares em escala global.  Nessa esteira, é possível traçar um paralelo com este trecho do discurso:

Os homens que odeiam desparecerão, os ditadores sucumbem e o poder que do povo arrebataram há de retornar ao povo.


Tal trecho faz menção ao fato de que o detentor da força é o povo unido contra todas as formas de opressão. Possível fazer alusão ao quadro de Delacroix, já mencionado em uma outra abordagem deste blog, cujo título é “Liberdade Guiando o Povo”. Caso queiram saber o contexto, cliquem aqui.

Em um salto histórico, hoje vemos o Brasil se erguendo, momento em que o povo resolve mostrar sua voz, ir às ruas. Uma luta por melhores condições sociais, para que o Estado cumpra devidamente o seu papel. Uma luta em prol da segurança, saúde, educação e, por que não dizer, pela dignidade da pessoa humana constitucionalmente prevista? Vive-se, neste país, sob um regime de exploração, inclusive tributária, onde o brasileiro trabalha cerca de cinco meses somente para pagar impostos e demais tributos. A violência político-social é escancarada!

Até então vimos que tentam nos empurrar goela abaixo a política do “pão e circo”, mas não há qualquer possibilidade de que isso seja acatado eternamente, embora o interesse da minoria dominante seja de que tal política se perpetue. Pode-se relacionar essa ótica ao regime absolutista que mais tarde desencadearia a Revolução Francesa. Em outras palavras, todo tipo de opressão, camuflada ou não, tem limites e faz com que o povo se rebele contra os abusos.

Destaco outro trecho da cena “O último discurso” do filme “O Grande Ditador”, o qual demonstra que a ideologia do Estado é aquela que segrega o povo em classes, sob a ótica de uma falsa democracia que exclui a sociedade, restando ao povo se unir para combater essas mazelas a ele impostas:

“Portanto – em nome da democracia – usemos desse poder, unamo-nos todos nós. Lutemos por um mundo novo… um mundo bom que a todos assegure o ensejo de trabalho, que dê futuro à mocidade e segurança à velhice. É pela promessa de tais coisas que desalmados têm subido ao poder. Mas, só mistificam! Não cumprem o que prometem. Jamais o cumprirão! Os ditadores liberam-se, porém escravizam o povo. Lutemos agora para libertar o mundo, abater as fronteiras nacionais, dar fim à ganância, ao ódio e à prepotência. Lutemos por um mundo de razão, um mundo em que a ciência e o progresso conduzam à ventura de todos nós. Soldados, em nome da democracia, unamo-nos.”

O dia 17 de junho de 2013 ficará marcado pelo dia em que o povo brasileiro, independente de fronteiras, se uniu para entoar um grande grito de liberdade. Descartando problemas pontuais passíveis em quaisquer manifestações em massa, o grito preso há tempos na garganta finalmente explodiu! Hoje vemos o País despertar, o que se reflete na busca pela liberdade contra os abusos que por tempos têm sido seu maior fardo. E o que se espera é que esse ritmo de protestos continue e ganhe cada vez mais força.

A luta pela Liberdade, em suas aplicabilidades e contextos, é legítima. Algo que deve ser reiterado, algo que sirva de inspiração para gerações presentes e futuras. Chega de abusos!

Tendo por base o já exposto, sugiro que assistam ao vídeo abaixo.  Para cada ato injusto que prive à sociedade em algum sentido, existirá uma reação, mesmo que tardia. A conclusão ficará a cargo de cada um!


*Texto escrito com a colaboração do historiador Daniel Nunes.

* Texto de minha autoria originalmente publicado no blog Diversidade Convergente.

23 fevereiro, 2014

Por que casar?

 Não sou a melhor pessoa para abordar o sentido do casamento. Até porque não pretendo exaurir o assunto. Adianto que não sou exemplo de religiosidade. Acho prudente enfatizar isso já que, naturalmente, ao falarmos sobre casamentos, instintivamente nossas mentes nos remetem a vestidos brancos, igrejas, altares, padres, pastores, padrinhos, buquês e todo o restante abrangido pelo kit-casamento. Não é o que vemos nas novelas?

O porquê da existência deste texto? Basicamente o fato de que uma amiga irá se casar em fevereiro de 2014. Tenho acompanhado os preparativos pelo que ela externa: desde a preocupação com o vestido, igreja, cerimônia, músicas e até com a burocracia. Tudo isso me leva a pensar a respeito do assunto e tecer algumas considerações.

Mesmo que muitos relativizem a importância de um casamento, isso é coisa séria! Afinal de contas, quando é que se tem a certeza de que aquele é o indivíduo com quem você pretende passar o resto da vida?

É comum vermos a união de duas pessoas não por uma questão de conveniência (desconsiderando-se as exceções), mas sim de convivência, sentimentos, afinidades (e até divergências). É possível aprender bastante um com o outro e, mesmo na distância, sentir-se vestido pelo sentimento de união.

Em uma visão pessoal, creio que se propor a um relacionamento é, também, um exercício de paciência. Há ocasiões em que uma parte cede em favor de um bem maior. E quando as divergências se tornam nítidas, conversas e consensos se fazem necessários para que o “problema” seja exaurido. Ao contrário do que muitos pensam, não é estritamente desgastante, mas sim uma questão de prioridades. Quando se prioriza um relacionamento, algum motivo forte está implícito. Um sentimento maior que aglomera tantos outros e que torna ínfimo quaisquer eventuais desentendimentos.

Propor-se a um relacionamento pode parecer incoerente, já que se torna possível aprender a amar até os defeitos do outro. O companheiro se torna perfeito, ainda que eivado de imperfeições. Acredito que o conceito de perfeição não é uma subjetividade absoluta e, fazendo um trocadilho, a definição de perfeição não traz um significado perfeito.

No caso em que se tem por objeto a análise de um relacionamento, sob minha ótica e vivência, torna-se um conceito objetivo onde é possível afirmar com propriedade que a pessoa perfeita, que te completa, supre e traz os melhores sentimentos é aquela que te faz aferir, com uma certeza íntima, a existência de um verdadeiro relacionamento. É uma visão objetiva quando externada, mas construída mediante a subjetividade, algo peculiar de cada um.


É comum aprender a admirar o outro não apenas pelo que é dentro do relacionamento, mas pelo que tem sido em diferentes situações. Um relacionamento pode ser fonte de inspiração e instigar a querer ser melhor para o outro. Esse conjunto de sentimentos, paradoxais ou não, muitas vezes sintetizam aquilo que chamamos de amor combinado com o anseio de que tal união perdure por anos. Ao menos a ideia de casamento, ao senso comum, induz a isso.

Penso que a maioria procura um companheiro não somente com a finalidade de constituir família, embora possa ser esta a ideia central que norteie um casamento. Há, em primeiro plano, duas pessoas unidas com um objetivo de vida comum, mas que pode significar algo além disso. Os fundamentos maiores decorrem, também, da relação de segurança, confiança, fuga da solidão, companheirismo, sentimento de amor, carinho, zelo, paixão. É impossível enumerar exaustivamente os motivos, apenas pode-se perceber que eles existem e se sobrepõem à ideia em sentido estrito de apenas constituir família ou formalizar uma relação preexistente.

Ora, depois de algum tempo de relacionamento duradouro, constatado conforme as particularidades, seja pelo tempo de união, seja pela intensidade desta, o que se espera é que a dita união seja formalizada.
Mas por que formalizar?

A princípio, alguns não curtem a ideia de uma união “informal”, embora existam casos em que a simples união, ainda que não submetida a cartório ou cerimônias religiosas, seja muito mais “casamento” do que tantos outros realizados segundo os ritos religiosos ou legais. Mas tal questão também é particular, e é inconcebível para alguns se unirem fora dos ritos comumente aceitos, sejam eles religiosos ou não. Isso abrange um histórico familiar e incumbências morais.

Formalizar implica considerar duas esferas: tanto a legal quanto a cultural/religiosa. É fato que a ideia de casamento, tendo por foco o Brasil, está notoriamente interligada ao fator cultural/religioso, onde duas pessoas se unem combinando os laços afetivos com aqueles que se estendem aos efeitos legais e os laços contratuais.

O casamento, à luz do Código Civil Brasileiro, abrange uma série de procedimentos, prazos, impedimentos, documentos para habilitação, capacidade para contrair o matrimônio, dentre outros fatores para que seja considerado válido. Seria um mero negócio, uma relação contratual, que estabeleceria direitos e obrigações legalmente constituídas entre duas pessoas, com efeito sobre terceiros.

Em uma visão simplista, o casamento seria um contrato firmado entre duas partes. Uma garantia de que os deveres sejam devidamente cumpridos e os direitos respeitados. Esta seria uma ideia vaga sobre a necessidade de formalização.

Mas isso nos remete à aprofundada visão cultural/religiosa, intrínseca no sentido de casamento para muitos. É sabido que a conotação que este atinge busca uma aceitação cultural e, dependendo dos credos de cada um, torna-se algo originariamente divino. Talvez o único método válido de contrair um casamento, restando à esfera civil o cumprimento de formalidades residuais.

Nessa segunda visão temos aspectos bem mais subjetivistas, mas que, consuetudinariamente abarcam muito mais significados do que a formalização de um contrato expresso em um papel que carrega validade jurídica em seu bojo. Não seria o casamento um simples instrumento contratual que vincularia as partes. Diante do exposto acima, notório é que não considero o casamento uma mera assinatura de documentos que vinculam ambas as partes.

O casamento, a meu ver, antes de se considerar os efeitos civis decorrentes de sua realização, se trata de uma aliança construída entre duas pessoas através de objetivos e sentimentos comuns. Casar-se na esfera religiosa pode significar um acontecimento muito mais valioso e digno de ser cumprido do que um rol de obrigações estipuladas no papel. Aos olhos de Deus, com foco Nele quando da realização dos atos matrimoniais (e não somente aos “olhos da lei”), torna-se uma obrigação moral muito mais legítima.

Retomo à tentativa de justificar a necessidade, por outro aspecto, de que o casamento seja formalizado. Sabe-se que o casamento acarreta consequências sociais e legais, que saem da esfera familiar e abrangem terceiros direta ou indiretamente. Está para além do direito sucessório ou da legitimidade para realizar uma série de atos civis. Assegura, também, a ideia de reconhecimento perante determinadas relações sociais/obrigacionais.

Há uma série de pontos de vista que justificariam a ideia de casar, mas nenhum é válido sem que se considere a percepção íntima de quem se propõe a contrair um matrimônio. Ainda que pareça inexplicável, é perfeitamente concebível que o sentido para uma vida feliz a dois se encontre justamente em um casamento. Dessa forma, o questionamento inicialmente proposto não é algo que eu ou você possa traduzir em palavras. É uma certeza que simplesmente acontece e que dispensa tantas outras teses sobre o assunto.

*Texto inspirado em uma pessoa querida que se casará em breve. Marília Rosa, essa é pra você!
Imagem por Débora

Texto de minha autoria originalmente postado no blog DIVERSIDADE CONVERGENTE.